09 Outubro 2006

Fragmentos

Ela ainda ouvia seu coração palpitar.
Parecia repetir o mesmo nome, sem cessar.
Mesmo depois de toda a guerra, todas as cenas,
Todos os medos expostos,
Todo o estraçalhar de esperanças:
Seu coração ainda dizia o nome dele.
E repetia, repetia, repetia...
E a cada batida, parecia ressoar mais forte, incomodava mais.
Como uma ferida que inflamava e que doía.
Não via mais nada.
Seus olhos enxergavam apenas uma nuvem desfocada,
Um embaralhar de imagens,
um contrasenso da realidade pairava perante seus olhos
E ela não entendia.
Não entendia aquele acumulo de distorções
Que, se diziam alguma coisa,
Não diziam coisa alguma.
Na sua boca subia-lhe a náusea.
O gosto da bile passeando em sua língua.
E nem o sal de uma lágrima ousou tocar seus lábios
Sentia ainda o cheiro do amor machucado,
O olfato de seus medos que entrava por suas narinas como éter e
Se ainda fosse humana, talvez chorasse.
Aquele cheiro que sentia, longe dos aromas agradáveis de outrora,
Era agora símbolo,
Era fato,
Era agora ato
De uma inação desesperada.
E ela...
Ela era só tato.
Era só lâmina.
Era só corpo.
Logo ela, que era feita de abstrações.
Logo ela que alimentava tantas e tantas ilusões.
Já não ouvia o mesmo nome.
Já não ouvia nada.
E logo ela que era tanto...
Num instante, no entanto
Simplesmente já não era.

03 Outubro 2006

O que mais nós podemos perder?

Outro dia, uma das professoras da faculdade estava falando sobre a cultura da confiança, enfatizando como ela praticamente inexiste no Brasil. A professora falava isso no contexto do cumprimento das leis, que aqui nós temos, contraditoriamente, a cultura de burlar. Mas, pensando sobre isso, cheguei à conclusão de que o desrespeito às normas é apenas um exemplo mais perceptível do que a nossa cultura da desconfiança é capaz de produzir. Sim, porque a descrença nos outros, que nós herdamos, acumulamos e multiplicamos, tem várias outras conseqüências que ficam por trás das portas das nossas casas, que se manifestam nas nossas relações mais particulares com outras pessoas. Vivemos um tempo em que confiar virou sinônimo de errar. Desconfiar é que é o certo. Se você confia nas pessoas, é quase considerado um autista. Confiar se tornou quase uma transgressão, e no nível mais poderoso, o nível empírico, que influencia de modo muito mais efetivo o comportamento humano do que qualquer conceito formulado num nível teórico e/ou científico e imposto por um código. Quem de nós ainda consegue ter um relacionamento afetivo livre da sombra da desconfiança? Via de regra, nos permitimos confiar uma única vez, naquela fase da juventude em que isso ainda nos parece desculpável. Se essa primeira experiência for mal-sucedida, a probabilidade de darmos votos de confiança a outras pessoas é reduzidíssima. Nossos relacionamentos estão sempre na corda-bamba, constantemente ameaçados pelo nosso próprio cinismo, pela nossa mania de esperar sempre o pior de qualquer um. Não existe mais espontaneidade, vigiamos e somos vigiados a todo momento, estamos à espera de qualquer deslize, de qualquer mínimo motivo que nos permita dizer "Eu sabia!", de qualquer oportunidade para confirmar esse nosso sentimento corrosivo de que tudo está perdido, de que a humanidade não tem salvação, de que não devemos nos importar com ninguém porque ninguém se importa com a gente. É comum julgarmos e condenarmos uns aos outros por um olhar, por uma palavra, por um gesto em um momento. Esquecemos de vários outros olhares, outras palavras e outros gestos do mesmo sujeito. É comum pensarmos o pior de pessoas que mal conhecemos pelas primeiras atitudes dela, que podem não representar quem ela é de verdade. Perdemos a chance de descobrir o melhor das pessoas, porque nos acostumamos a procurar os erros, as falhas, os defeitos. As manchetes de crimes e de guerras nos atraem, porque elas nos dizem que estamos certos. Como podemos confiar nas outras pessoas se elas podem nos trair e até matar? Estamos tão cinzas, tão nublados; estamos tão artificiais, tão superficiais... Será que viver assim, cheios de reservas, é a melhor maneira que temos de viver? Por mais que a gente queira e deva se resguardar, evitar sofrimentos, será que já não passamos da conta? Viver desse jeito é tão chato, será que vale a pena pagar esse preço para evitar problemas que podem ou não existir? Não seria melhor fazer o contrário, viver confiando, viver intensamente, e se preocupar apenas com os problemas que existissem de fato? Não é preferível ser otimista? Não sei se a nossa geração é capaz de se reinventar e adotar um novo modo de viver. Mas acho que seria uma grande conquista se ao menos conseguíssemos não perpetuar essa visão tão negativa de nós mesmos. Talvez esse seja o primeiro passo para voltarmos a nos respeitar. Afinal, o que mais nós podemos perder?

26 Setembro 2006

Lembranças Desfocadas

Fábio pegou o álbum de fotografias e se perdeu em lembranças.
Aqueles momentos agora estáticos tinham tanto significado, guardavam tantas lembranças, causavam tanta saudade.
Saudade!
Que sentimento era aquele que tanto afligia Fábio? Por quê não conseguia viver o presente e se desapegar do passado?
Mas ela estava sempre lá, batendo no ombro de Fábio e lembrando-o:

-Viu como vc já foi feliz? Como era lindo o seu passado, não?

E as lágrimas escorriam de seus olhos ao se lembrar de tantas gargalhadas, tantos sorrisos, tantos sonhos.
Agora, entretanto, se alimentava do que já passara e tornara-se um refém da saudade.
O que para algumas pessoas era um sentimento acolhedor, com uma palavra para defini-lo apenas em português, para Fábio era uma prisão.
Maldita saudade que o afligia e o impedia de seguir adiante.
Ali, naquelas fotos, via o rosto de Clara. Linda, sorridente, feliz!
Quantas saudades de Clara! Tanta que até doía!
Mas agora ela já se fora e o abandonara.
Como era possível amar tanto uma pessoa e, ao mesmo tempo, odiá-la tanto?
Clara despertava isso em Fábio. Amava-a e odiava-a com a mesma intensidade, com a mesma força, com a mesma paixão.
Bendita e maldita! Perfeita e ordinária!
Conheceram-se e apaixonaram-se!
A convivência perfeita, os sonhos, os planos. Morar junto foi o passo seguinte.
Tudo era perfeito para Fábio.
Até o dia em que ao chegar em casa, encontrou Clara quieta, contemplativa, estranha.
E assim Clara continuou por um bom tempo. Primeiro ficava assim em alguns momentos. Depois o comportamento se tornou habitual.
Clara deixou de ser luminosa e tornou-se amargurada, seca, áspera.
Até que um dia ela não estava mais lá. Apenas o maldito bilhete:

Não dá mais! Você não me completa. Estou indo embora. Vou sentir saudades, mas já tenho outra pessoa...

Saudades! Ia sentir saudades!
Ela que morresse, fosse pro inferno e se esquecesse dele.
Ele conseguiria refazer a vida, conhecer outra pessoa, ser feliz.
Não conseguiu.
As outras mulheres não tinham graça e Clara tornou-se uma obsessão.
E assim Fábio passou a viver do passado, amargurando aquela saudade do que nunca realmente havia sido verdade.
Trancou-se em lembranças e esqueceu que a vida continuava e que o presente era bem mais belo que aquelas imagens estáticas do álbum de fotografia.
Mas Fábio não sabia disso.
E acabou morrendo sem saber.
Leandro Faria Chaves, 26/09/2006

23 Setembro 2006

Saudade...

Os dias se arrastam... Tendem ao infinito
Meus lábios, sedentos, buscam sua boca.
Desejam seus beijos e seus cheiros, aflitos.
E quanto mais nua, mais tua, mais louca.

Sôfrega por sentir sua língua em meu umbigo
Tocar sua mão tocando meus seios
Entregar-me com gemidos em seus ouvidos
Mergulhada em luxúria e em devaneios

Sigo ainda passeando pela vida monótona
Desejando à noite, a extinção dos dias.
Ser apenas o furor que seu furor denota

Quero romper com gozo afoito essa agonia
De te querer tão perto, quando longe...
E findar a solidão que meu olhar esconde.


*Como o tema da semana é saudade... Escrevi esse soneto para o meu namorado, João.

22 Setembro 2006

Pra ter saudade, é preciso viver agora

Saudade, saudade, saudade. Fui eu que sugeri o tema, mas agora não sei o que escrever. Já falaram tanto sobre ela, em verso e prosa, que fica difícil escrever alguma coisa interessante. Bem, vou escrever simplesmente o que der vontade, afinal, não temos o compromisso de escrever algo bom, este espaço existe para trocarmos impressões, ainda que elas nada tenham de originais... Pra começar, como definir a saudade? Eu acho que ela é prima do amor, da amizade, do carinho, do encantamento. E é irmã da memória. Nem toda lembrança traz saudade, mas toda saudade vem abraçada com uma lembrança. Pode ser a lembrança de um quem, de um quê, de um quando, de um onde, de um como, de um porquê... mas é sempre uma recordação de algo que foi bom, que nos cativou e nos fez feliz. Na maioria das vezes, ela é uma menina doce, que chega devargarzinho e nos dá um sorriso. Aí nós sorrimos de volta, porque quando a acolhemos é como se estivéssemos acolhendo tudo o que nos faz bem, é como um agradecimento por tudo que a vida nos oferece de único, de sensacional. Sentir saudade é confirmar que vale a pena viver. Só precisamos ter o cuidado de não alimentar demais essa menina, para que ela não cresça além do que é saudável e se torne uma adolescente problemática, rebelde, voluntariosa, que em vez de nos incentivar a aproveitar as oportunidades que estão no presente, queira travar uma batalha perdida contra o tempo, fazer o passado se descolar da memória e invadir uma realidade que não lhe pertence. A saudade deve ser uma visitante, não uma inquilina, jamais a proprietária da nossa vida. Ter saudade é bom, mas ela só tem razão de ser quando continuamos livres e abertos para o novo.

21 Setembro 2006

Depende...

Tem horas que o que mais quero é que tudo se exploda.
Mesmo com meu sorriso no rosto e um ar de auto-confiança, por dentro posso estar despedaçado!

Fazer o quê? Vive-se de aparência.

Desde pequenos somos moldados e obedecemos a diversas convenções.

Isso pode, aquilo não pode, inadmissível agir daquela maneira!

Homem não chora e é insensível.

Estou aqui pra mandar essas convenções pro espaço!

Eu choro, sofro, chuto o balde.

Mas também sou canalha, insensível, egoísta e trapaceiro.

Não sou nem vilão nem mocinho.

Sou humano, só isso!

Com altos, baixos e médias emocionais como qualquer outro ser humano.

Mas me cobram o sorriso no rosto a todo custo. É o preço que pago pelo meu sorriso perfeito e luminoso de garoto de comercial de creme dental.

E tem horas que eu sorrio, pois sei ser falso quando quero.

Em outras, uso um sistema que tenho e aperto um botão invisível que tenho na testa. Quando pressionado, o FODA-SE é acionado e não poupo ninguém. Ninguém mesmo, pode ter certeza disso. E nesses dias que acordo azedo, o céu pode estar azul, o sol brilhando, mas não importa pois tudo pra mim é cinza. Como em outro dia o inverso também pode acontecer e meu lado Polyana se manifestar para que eu consiga achar positivismo em tudo.

É nessa eterna briga entre o bem e o mal que convivo todos os dias.

O anjinho e o demônio, um em cada ombro, tentando me convencer a agir dessa ou daquela maneira.

E eu cedo. Ou não.

Depende.

Afinal, tudo é relativo.

Inclusive eu mesmo, que posso ser claro ou totalmente confuso.

Entendeu?

Se sim, parabéns!

Se não, vai pro espaço!

20 Setembro 2006

Eu já quis ser a She-ra

Eu confesso. Eu já quis ser a She-ra. Também, difícil é encontrar alguma garota da minha geração não gostaria de ser como ela. Imagine: é só dizer algumas palavrinhas e pronto! - você está vestida para arrasar, maquiada, com um cabelo maravilhoso, seu cavalo se transforma num majestoso unicórnio (algo como a abóbora se transformar numa carruagem), todos os homens malvados têm medo de você e, pra completar, você tem um irmão (ou primo, sei lá!) que é um verdadeiro espetáculo e que está sempre a postos pra te defender! Como não invejar uma criatura dessas? Nenhuma outra personagem representa de forma tão perfeita tantos desejos femininos. Eu já quis ser a She-ra. E não me arrependo disso. Mesmo no seu cotidiano, ela era um mulher inteligente, determinada, corajosa, obstinada e fiel aos seus princípios. Acho que não me fez mal ter a She-ra como exemplo. Ela amava sua família, seus amigos, seu povo. Ela era independente. Ela se arriscava pelas suas crenças. É, realmente não foi ruim querer ser a She-ra. Ela foi um exemplo melhor do que eu mesma pensava quando comecei a escrever este post. Depois dela, eu passei a admirar mulheres fortes, que encaravam os problemas, que não se escondiam. Que não levavam desaforo pra casa. E ela não usava um uniforme parecido com a bandeira dos Estados Unidos... Não quero mais ser a She-ra. Sou adulta, e aprendi que os modelos devem servir como referencial, como inspiração, não como um formato para clonagem. Também já sei que não existem palavras mágicas para ficar linda e irresistível, para isso nós precisamos gastar tempo, paciência e dinheiro (e, às vezes, nem fazendo muito esforço a gente consegue...). Mas foi bom querer ser como ela. Inconscientemente, devo ter buscado essa referência em diversos momentos, quando fui levada a me perguntar se queria (ou devia) ser objeto ou sujeito. Decidi ser sujeito. Não preciso ser uma heroína, não preciso ser perfeita. Me basta ser senhora da minha vida. E, se eu vacilar algumas vezes, tudo bem. Porque apesar da She-ra ser o máximo, ser mulher neste mundo é uma aventura mais perigosa do que enfrentar as hordas do Esqueleto...

CHEGUEI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Oiêêêê?!......... Aloooouuuuu........... Tem alguém aí?...................
Como fazer uma entrada triunfal sem aplausos? Sem saber se terá alguém do outro lado nos lendo? Claro que tem os outros 4 patetas donos desse blog (eu sou a pateta nº5). Mas eles não valem, né... São café-com-leite.
Bem, já que é pra escrever, senão o Leandro morre de desgosto, vamos fingir que existe uma platéia enoooorme. Senão, não tem graça.
Platéia, aplauda-me agora!
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Faz de conta que foram 587 linhas de "clap clap" (aplausos) calorosos! Alucinados!
Nossa! Estão todos se rasgando por mim! Calma gente, calma... Já chega.
Pronto. Estou saindo da nave espacial (aquela da Xuxa). O Leandro é o Dengue. Oi Dengue!
A Leina é aquela tartaruguinha baixinha, acho que era o Praga...
A Gi é um contra-regra anônimo, daqueles que absolutamente ninguém vê. Oi, ilustre desconhecida!
E a Su... Ai Jizuis, o que eu faço com a Su? Sei lá... não tô muito inspirada hoje.
Pronto. Chega de palhaçada com vcs 4. Vou falar agora com o meu público, tá? Dá licença.
Sabem, queridos fãs que me assistem, quer dizer, lêem, estou até agora tentando entender o que nos leva a fazer isso. Blogs. O Leandro me apareceu com essa moda, e eu fiquei aqui abismada...
Quando eu era pequena, juntava todas as minhas bonecas, e fingia que era uma multidão imensa me assistindo. E eu era a Xuxa, claro. Tinha até uma saia amarela que eu colocava na cabeça. Era o meu cabelo loiro. Até caía nos olhos...
Já quando eu escrevia um diário, era o contrário. Tinha até chavinha! Afinal de contas, são segredos. Até onde sei, a premissa de um segredo, é que ninguém mais saiba de sua existência, né? Então, isso aqui pode ser tudo, menos diário.
A gente está aqui pq quer ser visto. Sabe Deus por que, mas a gente quer ser visto.
Não bastam os amigos e a mãe dizendo que nossos desenhos são lindos. A gente quer que todo mundo veja...
Não sou poeta, cronista, escritora, enfim... Mas já percebi que isso tb não é problema.
A gente põe a saia amarela na cabeça, e fica "sissi".
A nova onda é brincar de ser famoso. Agora é chique ser comum. Graças aos BBBs, tá assim ó de comuns na TV. É gente comum pra todo lado.
O grande barato é que quando um comum sobe no palco e mostra sua "normalidade", todo mundo se identifica.
'Olha lá! Ela é igualzinha a mim!'
Daí, fico me perguntando o que é que eu tô fazendo aqui? Diacho... Não sou escritora! Pra que que eu tô aqui escrevendo? Eu hein...
E vc? Tá fazendo o que lendo isso?